terça-feira, 13 de junho de 2017

Se vira nos 40. A Arte da Ironia.

Brasil, um dos países mais multiculturais do mundo. Temos todas as cores, religiões, gostos, sotaques, climas em um mesmo país. Arte e cultura transbordam em talento. Brasileiro dá jeito pra tudo, inclusive pra roubar, somos craques do " jeitinho".

Por falar em craques e o nosso futebol arte? Como professora de Artes, precisei dar algumas aulas sobre conceitos de artes, coisas que aprendi para definir a História do Teatro, e não a História da Arte, mas quem sabe um, estuda mais um pouquinho, faz umas analogias e pronto. Resumindo, desde a pré história, o homem se expressa nas paredes das cavernas.

 Era projeção, rituais onde eles tentavam se religar a natureza, oferecer sacrifícios, e fazerem as pazes com a Terra, com seus raios, trovões, maremotos e feras, muitas feras. Desenhavam o que ia acontecer, não desenhavam o que havia acontecido. Um sistema cognitivo mais espiritual e de fé, do que habilidoso em estratégias de caça, e montagem, e invenção e manuseio de armas. Eles usavam sangue e gordura de animais, restos dos sacrifícios, e faziam seus desenhos. Se chama pré história porque a história só começa quando eles aprendem a escrever, criar códigos de linguagem. 

A escultura também mostra no que eles acreditavam. Que a mulher era mágica. Seios fartos, ancas largas, quadris avantajados. Ela que fazia o milagre do nascimento. 

                                                         Essa é a Vênus de Willendorf.

Uma espécie da Deusa da Fertilidade. Não tinha nem rosto.

Já no período Neolítico, os homens começam a pecuária e agricultura, suas marcas em paredes mudam, e eles tem mais tempo para não fazer nada. Eles descobrem o ócio, o tédio. Um sistema cognitivo mais ligado ao abstrato, começa a pensar mais mesmo. É assim que nasce a arte. Do nada, e pro nada. Eu acho isso o máximo. Já estamos um mundo líquido, não há mais certezas, definir arte é uma discussão que não cabe. Ela é arte e não se explica, não se define. então como dar aula de Artes para adolescentes colados em celulares? Se vira nos trinta!!

Todos os movimentos que os homens do paleolítico e do neolítico faziam para "dominar" a natureza eram rituais de aproximação. Os gregos bem mais tarde vão inventar a mitologia Grega, para tentar explicar de onde vem o que, pra onde e o porquê. Esses rituais de aproximação aconteceram em todas as partes da terra. RELIGARE, essa é a palavra. Eles tentavam se re-ligar aos Deuses, à natureza. Eles não falavam nada, mas os rituais eram sagrados, e assim nasce a CULTURA.

Já afirmei, na introdução, que nenhuma cultura pode surgir ou desenvolver-se salvo em relação com uma religião.”
“ O desenvolvimento da cultura e o desenvolvimentos da religião, numa sociedade não- influenciada de fora, não podem ser claramente isolados um do outro; e dependerá do ângulo de visão do observador particular descobrir se a causa do progresso na religião é um refinamento da cultura, ou se a causa do refinamento da cultura é o progresso da religião.”

Notas para uma definição de cultura. t.s. eliot pág 41.

Nesse livro de quatro capítulos, o autor me mostra que ao ler uma frase, eu posso substituir a palavra religião pela palavra cultura e vice-versa, que vou entender o que ela pode dizer. Meu conhecimento se amplia.

E onde chega a arte?



Na jarra de água. 

Os primitivos tinham sede. Sair das cavernas para beber água, era a possibilidade de encontrar um tigre, onça, gavião ou qualquer fera bebendo do mesmo riacho. Inventaram a jarra, para armazenar coisas, e principalmente a água. Um dia, um caçador já agricultor, encontrou sua jarra quebrada. para variar, mesmo na família pré histórica, ninguém teve coragem de dizer quem quebrou a jarra do chefe da família. Ela parecia uma jarra qualquer. Ele então fez outra jarra, e fez desenhos nela. Pronto: identificação, sentido, e olha ela...a arte.

E futebol é arte?
SIM!!!!!!!!!!!
Aquele bando de pessoas vestidas do mesmo jeito, aglomerados no mesmo lugar, em rituais sagrados, gritos, rezas, sacrifícios, promessas, brigas entre times, e toda a CULTURA do futebol. Ser Palmeiras, Flamengo ou Vasco é pertencer a um grupo, e isso é identificação. Sentido de vida para muitos e arte sim. 

Esse foi o resumo das minhas primeiras aulas de História da Arte. A seguir vem a Antiguidade Clássica, com a Grécia e Roma. Berço da nossa civilização, arquitetura, pensamento, política e arte.
Assim, pra começar, me defino Dionisíaca. Gosto de dormir e funciono melhor a noite. Se fosse Apolínea, acordaria muito mais feliz para dar aulas as sete da manhã. Teria mais equilíbrio, seria menos impulsiva e menos palhaça e brincalhona. Na verdade eu não sou festeira, mas consigo entreter bem uma plateia. Falo alto, rio alto, e tenho um raciocínio rápido. Dons Dionisíacos, viva o Teatro. Foi nisso que me formei. Acertei na vocação, talvez tenha errado na escolha de profissão, então vivo essa tortura por amar estar em sala de aula e acordo cedo pra isso.

Pela Lei, a Escola deve ter as quatro modalidades de artes em sua grade. Dança, Teatro, Música e Artes Visuais. Parece piada né? Nem existem professores com licenciatura para isso. E nem as escolas tem esses quatro tempos na grade. Tudo se resume a um tempo de " Artes" - 50 minutos.
O profissional que estudou, leva seu diploma de Artes Dramáticas, mas tem de dar aulas de música, dança, e história da arte. Não que eu não saiba, eu sei, mas não me especializei nisso. Sou professora de Teatro, e mesmo assim, não sei tudo. A arte está em constante mudança, como faz pra se adaptar a essa estrutura em 50 minutos de Artes? Não dá.

Posso confessar duas gafes: 
A primeira eram 7 da manhã, e dando aula de Arte Grega para o segundo ano do EM, escrevi no quadro Panteão, ao invés de PARTHENON. Que mico. Vamos esclarecer:
Grécia- Parthenon



 Roma- Panteon.

NÃO EXISTE PANTEÃO MANUELA!!!!

A segunda foi a ironia em explicar a arte e seu " não conceito". Me rotulei como uma idiota que estou em sala de aula, já que arte não se define, e não é de fato Útil.

 A Fonte ( Urinol) Marcel Duchamp- 1917.

 Era pra entrar no Dadaísmo e contar toda a ironia que Duchamp e seus contemporâneos do final do séc XIX e início do século XX ao questionar, o que é arte, onde ela está e pra que serve? Estavam cansados com a guerra, os homens se mataram e não resolveram nada, pra que a guerra? Vamos a arte!! Ironicamente.
 Não tive tempo. É muito complexo, e eu ainda aprendi isso com Ferreira Gullar em um curso  que ganhei de um concurso cultural da Revista Bravo, na Casa do Saber, na Lagoa RJ. Eu respondi uma pergunta cabeça incrível sobre a ameaça de morte da arte, pensei que havia escrito uma coisa, ganhei o curso e fui a quatro aulas com o mestre de graça. Melhor professor de Artes que já tive. Com seus 81 anos, ele apenas VIVEU tudo o que ensinava. No final do concurso fui reler a minha resposta: eu pensei uma coisa, escrevi outra muito mais inteligente e por isso ganhei o curso. A arte faz isso, amplia as respostas, permite que o erro possa ser o acerto. E foi. Neste blog terá muitas histórias de artes sobre a minha vida e a minha carreira.

Ao me deparar com a sala de aula no EM, e não haver material didático disponível, acessível e objetivo, pretendo resumir tudo que sei, e estarei aprendendo ao decorrer dessa caminhada.

Professora, atriz, produtora, e blogueira de Artes. 
Evoé.

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